Entre os 18 meses e os 3 anos, muitas famílias entram em uma fase intensa, marcada por birras frequentes, resistência, muitos “nãos” e uma sensação constante de exaustão. Popularmente chamada de Terrible Two, essa etapa costuma ser vista como um problema — mas, do ponto de vista do desenvolvimento infantil, ela está longe disso.
O que muitos comportamentos desafiadores revelam, na verdade, é um cérebro em plena construção. A criança começa a se perceber como um indivíduo separado, com vontades próprias, desejos e opiniões. O corpo avança rápido, a curiosidade explode… mas a capacidade de regular emoções ainda está imatura. O resultado? Emoções grandes demais para um sistema que ainda está aprendendo a lidar com elas.
As birras, tão temidas, não são sinais de manipulação ou falta de limites. Elas costumam ser formas primitivas de comunicação. Quando faltam palavras, sobra comportamento. O choro intenso, o grito ou o se jogar no chão geralmente apontam para frustração, cansaço, sobrecarga sensorial ou dificuldade de lidar com a frustração do “não”.
Entender isso muda completamente o lugar do adulto na relação. Sai o campo de batalha, entra o campo do acompanhamento consciente. Em vez de tentar apenas controlar o comportamento, passamos a olhar para a necessidade que está por trás dele.
Essa fase também é um terreno fértil para a construção de bases emocionais importantes:
– o início da autorregulação emocional
– a formação da identidade
– a relação da criança com limites
– a forma como ela aprende a lidar com frustrações
Ao mesmo tempo, é um período extremamente desafiador para pais e mães. A sobrecarga emocional, a culpa por “não dar conta”, a sensação de estar errando o tempo todo são comuns — e humanas. A parentalidade nessa fase não exige perfeição, mas presença, consciência e disposição para aprender junto.
Quando o adulto consegue se regular, oferecer limites claros e, ao mesmo tempo, acolher a emoção da criança, algo poderoso acontece: o conflito vira oportunidade de vínculo. A crise deixa de ser apenas desgaste e passa a ser aprendizado.
Os Terrible Two não são uma fase a ser “superada o mais rápido possível”. São um convite ao crescimento — da criança e do adulto. Com compreensão, estrutura e ferramentas adequadas, é possível atravessar esse período com mais segurança, conexão e menos sofrimento desnecessário.
Nem tudo que parece difícil é problema. Às vezes, é só desenvolvimento pedindo passagem.